10/12/2009
Há dias…
Há dias em que me apetece escrever-te uma carta. Daquelas de papel, que escondemos dentro de um envelope perfumado. Uma carta escrita com a minha mão, que espelhase a convicção das minhas palavras. Uma carta cheia de rabiscos, porque nem eu sei muito bem o que sinto. Uma carta que levasse até ti aquilo que (julgo eu) ainda não sabes. Ou sabes, mas finges que não sabes, porque não te interessa saber.
Gostava de escrevê-la e guardá-la na minha mesa de cabeceira. Não a iria enviar, não valeria a pena... Mas gostaria de a ler todas as noites, antes de dormir. Era bom para poder perceber o que sinto. Ainda melhor era poder esquecer o que sinto... porque também não vale a pena.
http://asminhaspequenascoisas.blogspot.com/2009/10/ha-dias-em-que-me-apetece-escrever-te.html
No meu quarto há uma janela
Sobre um pedaço do mundo
Na rua estreita
Os prédios seguram o céu
As caras de sempre
Têm dias sorridente e outros sisudos
Porque de alegria e de tristeza
Cada um tem um pedaço que é o seu
No meu quarto, pela janela,
O sol entra em geometria
Faz desenhos no chão
Pinta-me luas na pele
Rasga sombras teimosas, escondidas,
A reclamar poesia
E voa das mãos para a rua aviões de papel
Há dias que sopram
Os dias que vão
Levantam asas
Ou ficam em pedaços pelo chão
Há dias perdidos
E outros sem fim
A colar cada pedaço
Do mundo que as partiu dentro de mim
Nesta rua estreita
Os prédios escondem o resto de escuro
Os caminhos da noite, mais longe,
No resto do céu
Há em cada olhar
A vaga certeza do mesmo rio ao fundo
Mas por dentro do peito
Cada um traz um horizonte que é o seu
Há dias que sopram
Os dias que vão,
Levantam asas
Ou ficam em pedaços pelo chão
Há dias perdidos
E outros sem fim
A colar cada pedaço
Do mundo que se partiu dentro de mim
Mafalda Veiga – Os Dias